quinta-feira, 9 de julho de 2009

De volta para o futuro

Este era eu de então...

Zé, quer dizer Zé mesmo, mas Zé! em chinês quer dizer estar presente,



aqui e agora.
Custei a gostar de meu nome.
Quando criança era o mais comum.
Quando cresci, já nem tanto.
Foi quando comecei a gostar de José,
melhor ainda, de José Octavio.

Lembro-me de como eu era contemplativo, passava horas olhando para o horizonte como olha o cachorro acima, imóvel. Eu olhava para as bolinhas de sabão e seus reflexos, para os papagaios que eu empinava sem cerol e era feliz.

Nunca quis trazer para mim o papagaio de ninguém, os que eu mesmo fazia me bastavam.

Quando criança, eu confiava e esperava. Foi assim quando minha família me esqueceu na varanda de um hotel em uma estação de águas no Sul de Minas. Eu sentei em uma cadeira confortável, de reguinhas abauladas de madeira e esperei balançando os pés que não alcançavam o chão.

Eu tinha certeza de que meu pai voltaria para me buscar.

E voltou mesmo.


Lembro-me de como eu sonhava acordado e confiava no futuro enquanto minha mãe recitava orgulhosa, toda cheia de si e de seus Brasís idealizados: "Criança, ama com fé e orgulho a terra em que nasceste. Olha que céu, que mar, que rios e que floresta, a natureza aqui perpetuamente em festa..."


Bem mandado, eu amava.

Inocentemente.

Capivari, em Abril de 2009

Re-encontrei aquele meu olhar em Capivari no olhar deste menino dependurado na janela de sua casa. Olho para ele, me vejo e me sinto criança de novo, mas o olhar hoje desconfia. Desconfia do futuro e do Brasil.

O menino não olha para mim, olha cabisbaixo para o chão do alto do seu cavalete, cavalo, bicicleta, moto, avião, ... no seu mundão, fechado em si mesmo, no mundão que é Capivari.



Capivari é aqui!


Voltei prá casa guardando em mim aquele olhar e que só me abandonou quando re-encontrei a minha rotina.

Domingo passado, dia 4 de julho, resolvi conhecer o novo e segui em direção à Cidade Administrativa que o governo constrói às pressas para marcar presença na história, repetindo JK, usando o mesmo arquiteto para avalizar o seu poder ... credencial para chegar até Brasília.

Eu buscava conhecer os contrastes e por isto fui para o bairro localizado na outra margem da Via Verde que nos leva ao Confins. Será o Benedito? Sim, era o bairro São Benedito de Santa Luzia, cidade limitrofe.

Munido de papel, lápis e de um desejo de fazer correr o risco, como de costume procurei a melhor vista. Desta vez não foi dificil encontrá-la.

Fiquei impressionado. Por mais que eu tenha escutado falar, lido e visto a respeito, a obra me pegou de surpresa. O lugar é belo, amplo e o projeto competente, como sempre. Com relação ao resto, difícil dizer, mas é fácil de imaginar que a pressa, inimiga da perfeição, seguramente deixará marcas negativas no uso e ocupação do complexo.

Eu avisei: sou macaco véio e não é de hoje que desconfio. Meu olhar já não é isento há anos luz.

Em pé abri meu bloco A3 e freneticamente rabisquei e rabisquei. De repente um menino apareceu e perguntou: quer uma cadeira? Estranhei tamanha gentileza. Isto não é normal, não acontece quase nunca em nenhum lugar por onde ando e desenho.

Aceitei e puxei conversa: Gosta de desenhar, perguntei? Gosto - Matheus respondeu - mas não este tipo de desenho. Gosto de desenhar personagens... Perguntei: Quer desenhar? Eu tenho mais papel e lápis, completei. Não, agora não, tenho que ajudar minha mãe. Insisti: Você tem algum desenho prá eu ver? Tenho - ele respondeu e foi "lá dentro" buscar o que tinha feito da obra em frente. É só um detalhe, adiantou. Posso fotografar? Perguntei. Pode. Respondeu.


Desenho do Matheus com o prédio do novo Palácio de Governo na base da folha de seu caderno.

O maior vão livre do mundo, dizem.
Ele voltou para sua casa e seus irmãos começaram a aparecer. Eram quatro homens no total. Imediatamente voltei à minha infância ao ver o seu irmão mais novo, Ruan? Era eu de novo com a melhor cara do mundo, a cara de quem confia e é feliz.

Os outros três, Matheus, João Vitor e Luiz Felipe, eram como se fossem meus irmãos mais velhos, Francisco, Roberto e Antonio, em ordem decrescente.

Quando eu tinha a idade do Ruan, minha única irmã Maria ainda não havia nascido... A filha tão esperada - parece que minha mãe ficou grávida dela desde o dia em que conheceu meu pai - chegou quando eu tinha três anos e carregou para si toda atenção além de laços enormes na cabeça.

Com o trono ameaçado, enfiei o pé na bacia com água fervente - naquele tempo eu tomava banho numa bacia de alumínio ENORME - e consegui chamar a atenção que queria. Doeu muito, fui parar no hospital e guardei a cicatriz sob a meia por muito tempo. Melhor mudar de estratégia. Pensei.


Meu reino, ruiu. Passei a ter pena de mim.

Como eu sempre fui um menino bonzinho e sonhador não foi difícil fingir calma e construir outro, paralelo, só meu. Bonzinho sempre não é bem o caso, passei a usar máscara de menino bom que por pouco não ficou impregnada para sempre em minha persona.

No meu mundo novo me refugiei e do alto de minha significância comecei a olhar desconfiado e dissimulado, comecei a prestar atenção nos outros, a fazer comparações e elucubrações. O confronto dos dois mundos foi , foi quando passei a sentir na pele os pecados da carne e do espírito.

O primeiro deles e talvez por isto o maior e mais traumático, foi o de ter que ir para a escola dia após dia, pela vida toda = o infinito. Depois outros vieram desde então em ritmo cada vez mais frenético, por todos os meios, com fins lucrativos, obscuros, diversos e, por vezes, divertidos.

Os mais recentes chegam do Senado, das Câmaras federais e municipais, das Assembléias dos deuses e dos homens...



Matheus e Ruan, na porta de sua casa.
PerceOlhem bem a limpeza do quintal, as paredes pintadas... coisa, digo, casa rara hoje em dia.
Um verdadeiro lar, doce lar.

Penso, logo existo e, enquanto penso desenho!

E continuei a desenhar o futuro que estava diante de meus olhos emendando folhas e a fotografar aqueles meninos sem tirar o olho do que ficou em Capivari. Enquanto o de lá mira o vazio, os daqui miram a obra faraônica que brota na frente de sua casa, que irá expulsá-los de seu mundo composto pelo lar muito bem arrumado, quintal com uma mangueira frondosa e um clima de harmonia e de felicidade percebidos a olho nu. Um mundo que lembra os quintais da antiga Belo Horizonte onde, crianças, vivíamos soltos, sem medo.

Quer café? Matheus perguntou.

Quero. Respondi e tomei um café com muito açúcar e muito afeto.



Esta é a montagem do desenho da nova Cidade Administrativa que fiz a olho nu futuro.

Para se ter uma idéia da dimensão da obra e da distância de tudo, a pequena mancha que se vê à esquerda é o centro de Belo Horizonte, uma massa edificada muito densa.

Mais ao fundo, a Serra do Curral, seu símbolo maior e natural.


Esta é a massa edificada do centro de BH, a da esquerda.
A resolução dos desenhos não é boa de propósito. É uma proteção contra um pecado capital do mundo digital: a pirataria.



Este é o Ruan de hoje.
O desenho foi feito tendo sua foto como referência.
O menino de Capivari e os daqui me levaram para o passado e me trouxeram a esperança de poder resgatar o olhar puro e a felicidade que perdi na trajetória de minha vida.

Eles me trouxeram de volta para o futuro.


É como se eu tivesse subido até o topo do Pico do Itambé carregando muito peso, dando voltas em torno de mim mesmo e começasse agora a descer, mais leve, consciente do caminho que devo tomar, sob este céu azul, este clima perfeito e o sol preguiçoso deste mês de férias. Tempo de empinar papagaio, de fazer bolinhas de sabão e de ser feliz.

Desta vez para sempre.




Peço a sua benção, Ruan!
Que Nosso Senhor da Vida Boa lhe proteja.

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