quinta-feira, 9 de julho de 2009

Dia agnóstico... ou, flores para o povo

Capivari é aqui e agora, de novo.
OLHAI AS SEMPRE VIVAS NO CAMPO
Flor de um bouquê


Dia 6 de julho foi a data inicial dos trabalhos em ateliê das equipes de Capivari, a deste “Faltam - -0- - dias para o amanhã” e a do grupo do teatro "Quatro Gerações". Antes disto muito já havia sido feito: reuniões preliminares, viagens à Capivari, relatórios, reuniões rotineiras, diagnósticos, pesquisas, estudos, croquis, discriminação e orçamento de materiais... agora aguardamos a compra e doação. Enquanto os tecidos não vem, modelamos.


No caso deste - -0- -, Thatyane e Nayara participaram no mês de maio de oficina de confecção de coroa de flores para anjos na Cidade Ouro Preto onde foi desenvolvida um diadema com aplicação de flores de tecido compostas com sutileza e delicadeza com flores naturais, as Sempre Vivas, naturais de Capivari e da região de Diamantina, conhecida internacionalmente . Talvez por isto, ameaçada de extinção. É o maior ícone da região.

De lá prá cá, iniciou-se uma produção de flores comandada por Thatyane sem precedentes na história da humanidade. O objetivo é criar os adornos para os diademas e as asas dos 12 anjos que protagonizam a festa de Coroação de Nossa senhora Aparecida, em Capivari. Para alcançarmos este objetivo, Nayara e alunos voluntários MMMM – Mariana/Marcela/Maria Rita/Manoel - se juntaram ao mutirão e puseram mãos à obra.

Primeiros resultados: Seis diademas, os outros seis também já estão prontos

Diademas em linha e o sol de inverno no ateliê

A proposta original do projeto previa a imersão na e a participação da comunidade neste estágio, no entanto muitas foram as dificuldades para acomodação e alimentação de nosso grupo no distrito já que a informalidade não nos possibilita comprovar despesas tal como exigido em projetos patrocinados com recursos de terceiros, no caso, da Universidade. Este fator é extremamente limitador, deve ser analisado com carinho pela associação de moradores do distrito e para ele buscar uma solução.

Manoel, Mariana, Thatyane e Nayara circundam Éder que vai nos ajudar na estamparia dos tecidos. A pose é espontânea... NAs mãos de Thatyane, os primeiros ensaios para construção das asas.

A dificuldade de comunicação com Capivari é enorme. Lá não existe telefonia fixa, o celular funciona quando quer a não ser que se suba no alto do Pico Itambé - veja na 1ª foto... - não existe Internet e o correio demora mais do que o usual para chegar ao(s) destinatários porque as cartas são entregues ou postadas em Milho Verde ou São Gonçalo do Rio das Pedras. Tudo isto nos inviabiliza programar idas e vindas.

Manoel incorporando um anjo? As asas ainda não estão prontas.

A Associação de Mulheres "Sempre Vivas Sempre", de Capivari, além do belo nome não tem espaço suficiente para atuar porque cedeu suas instalações para o grupo escolar até que sua obra seja finalizada e entregue à comunidade, ou seja, não existe espaço adequado para trabalhar e armazenar trabalhos e tecidos finos, delicados.

A mão de obra local ainda é precária e este projeto não tem como patrocinar a ida de um grupo, como o “Mulheres de Fibra”, de Ouro Preto que já se dispôs a ir até Capivari para ensinar a população local a trabalhar artesanato com produtos de sua região. Não temos como bancar os custos de transporte, acomodação e alimentação correspondentes o que só seria viável se projetos maiores fossem desenvolvidos e aprovados pelo “Universidade Solidária”, do Banco Real – Capivari está fora do raio de 150 km de atuação da FUMEC – pela Caixa Cultural ou Lei de Incentivo Estadual/Federal. Seria necessário que a comunidade estivesse muito mais organizada em todos os sentidos para atuar como promotora e, inclusive, ter condições mais adequadas de comunicação.

Bonita a flor, pensava eu.

Voltando ao Flores para o Povo...

Ela vai de vento em pôpa como pode ser constatado pelas fotos.


O gesto e o trabalho dos alunos são simbólicos, delicados, amorosos e a garra profissional. O objetivo maior é procurar fazer com que Capivari valorize suas tradições e seus potenciais e que desenvolva cada vez mais a consciência de que podem e devem explorá-los adequadamente, criando uma identidade e um diferencial que eleve a sua auto-estima e crie condições de se autosustentar.

O primeiro passo, na nossa opinião, é procurar desenvolver a consciência de que não se deve mais esperar acomodado pelas coisas que chegam prontas e bem acabadas, por isto "Faltam --0-- dias para o amanhã"; desenvolver a consciência de que se deve receber os visitantes e tratá-los de maneira que faça com que eles levem consigo na bagagem o desejo de voltar; a consciência de que é preciso querer aprender a fazer e correr atrás, querer conquistar e não mais se fazer de vítima; a consciência de que é possível começar copiando sim, cuidando no entanto para que a produção de seus produtos tenham a cara de Capivari.

É preciso ter a consciência, por exemplo, de que uma “Bola Ecológica” revestida com flores da região, não pode ter o seu miolo de isopor... Simples assim.

Mariana que, além de trabalhar já doou isto e aquilo para o projeto.

A maior preocupação deste - -o- - após a entrega de toda esta produção, assim como a do grupo de teatro, é a necessidade de conscientizar os protagonistas dos dois projetos de que é necessário cuidar bem do presente, inclusive destes que receberão; que é necessário acomodá-los e guardá-los bem para os próximos anos e próximas gerações com o mesmo carinho com que ambos estão sendo produzidos; é fundamental que reconheçam que as peças dos figurinos não pertencerão aos protagonistas da festa e do teatro, mas que serão patrimônios materiais da comunidade que, aliados aos imateriais, criará o diferencial necessário para atrair a todos nós e o verdadeiro progresso, ambos necessários para se construir o presente e o futuro de Capivari e o de seu povo.

Esperamos que, depois dos apoios importantes que a comunidade já recebeu e de tanta participação em cursos e tantos diplomas - dependurados com orgulho nas paredes das casas - os líderes de Capivari se organizem para conquistar cada vez mais a condição de autosustentabilidade que tanto almejam, com muito mais apoio, mas por seus próprios méritos.

As bolsas disto e daquilo outro distribuídas a rôdo por este país afora, criou uma cultura do esperar sentado e reclamar.
Esperamos que isto não aconteça em Capivari.
Diplomas dependurados não bastam. São estes e outros os tantos mandamentos para que a Recherche du temps perdu possa efetivamente trazer resultados positivos para Capivari.

Que seu padroeiro, Bom Jesus da Boa Vida, faça com que seu povo compreenda que "boa vida" não quer dizer que se deve esperar sentado e ganhar tudo de mão beijada.
A mão, digo, amém!






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