quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Capivari/MG - Pausa para meditação

Quando crianças viviamos nas ruas do bairro Funcionários, em Belo Horizonte, pulando de casa em casa sempre ansiosos por alguma comemoração, feriado, férias, passeios...

Aniversário era o máximo, mas eu sempre me frustrava porque o meu era na véspera do ano novo, depois do natal, quando meus amigos já tinham viajado e quem ficava só queria saber de fazer planos idealizados para o futuro. Poucas foram as vezes que o meu aniversário mereceu uma festa e, talvez por isto eu me lembre de todos os presentes que ganhei, mas isto não vem ao caso agora.

Um aniversário que era ansiosamente aguardado por nós era do Corpo de Bombeiros no mês de junho. A festa durava o dia inteiro e tudo era liberado, inclusive a cerveja.

Custei a gostar da bebida.

Outro era do Toninho, que morava na Rua Inconfidentes. Sua mãe, D. Carminha, e seu pai, "seu" Proietti, preparavam uma grande mesa de salgados e doces sob a cobertura ao lado de seu jardim e, em torno dela aguardávamos a ordem para "atacar". Era só apagar as luzes para cantar o Parabéns, que as nossas ágeis mãos corriam em direção ao pedaço de nossa preferência previamente escolhido. Seu Proietti, muito esperto, acendia as luzes antes "dos muitos anos de vida"e, pegando todos nós com as mãos na botija gritava:

Pausa para meditação!

E lá vinha lição de moral: é preciso saber esperar e não sair engolindo tudo de qualquer jeito sem sentir o gosto...

Gosto pela vida. Entendi isto só muito tempo depois.

Os ares daquele tempo eu reencontrei em São Bartolomeu, onde as pessoas fazem planos e esperam o futuro chegar, sem pressa, como fazíamos nós naquela época em que a palavra não fazia parte de nosso vocabulário como há muito já faz. São eles, como parecia que éramos nós, membros de uma só família dono de um enorme tesouro e futuro promissor.

Os ares daquele tempo eu reencontrei em janeiro deste ano sob as águas da Cachoeira do Tempo Perdido e dela me lembro agora, próximo de finalizar este Faltam --0-- dias para o amanhã. Assistindo ao vídeo, sinto o frescor das suas águas e da minha juventude neste dia extremamente quente de outubro e sugiro a todos que aqui chegaram, que façam uma pausa para meditação: Respirem fundo, relaxem e sintam o gosto da vida que corre no sangue de suas veias como corre nas águas da Cachoeira do Tempo Perdido.

Perca o seu tempo. Você merece.

Depois ataque!

Capivari/MG- Cachoeira do Tempo Perdido

Em Capivari, onde o tempo parece ter ritmo próprio, existem inúmeros atrativos. Destaco a Cachoeira do Tempo Perdido que pode ser conhecida através deste vídeo bem amador, mas que dá uma idéia do que vem a ser perder tempo naquela belíssima região.

Quem aparece nadando é um de seus donos e sua família. No colo, o Ramon.

A questão que se coloca é: o que fazer para garantir que ele e as crianças de Capivari desfrutem no futuro desta maravilha, que ainda não está comprometida pelas mãos e ações do homem, mas está ameaçada de?

A resposta é simples: educação, trabalho, saúde e conscientização.

Muito ainda falta fazer, mas aos poucos a realidade vai se transformando de maneira positiva. Já não se colhe mais Sempre-Vivas para vender ou para fazer artesanato. A população está cultivando a flor, protegendo seu chão evitando a capina e o desmatamento. Um belo exemplo.

Que o futuro seja abundante em Capivari, tal como as águas que caem com força e energia sempre em nós renovadas.

Capivari/MG - Festa de Nossa Senhora Aparecida

Enfim, o grupo de crianças - que não está completo na foto - veste com elegância o novo figurino na frente da igreja do padroeiro da cidade.
Quem Nosso senhor da Vida Boa as proteja.
Amém!
Alegres e orgulhosas, as crianças se apropriam daquilo que para elas foi criado com tanto esmêro e carinho por Thatyane, Nayara, Marcela, Érika, Mariana, Daniela e Fabricio. As que ainda não participam da festa aguardam ansiosas o dia de se vestirem de anjos para manter a tradição da comunidade Sempre Viva.
Orientações foram passadas para as senhoras de Capivari, que se comprometeram a bordar nas palas e nas barras das saias, elementos da flora local.
Novas parcerias - Emater e Prefeitura do Serro - estarão disponibilizando em breve 4 máquinas de costura industrial, um curso e monitoria para ensinar a população a usar os equipamentos com propriedade, criando assim condições de sustentabilidade e de rentabilidade.
Abaixo, a curiosidade das crianças em relação às suas novas roupas.
As asas dos anjos colocaram mêdo em uma delas que disse não poder usá-las porque não podia voar...
Ela tem mêdo de altura...

Abaixo, Thatyane registra os manequins criados especialmente para comportarem os figurinos da festa, que poderão ficar expostos durante todo o ano no Centro Comunitário local, tornando-se uma atração para os turistas que visitam Capivari e, principalmente tornando viva e presente cada vez mais a tradição da festa.
No portal da igrejinha, os looks do Índio, do Anjo e da Negra.

Abaixo, Antonio, um dos pescadores que recolhem a santa do rio, com sua roupa nova que tanto o entusiasmou, criada e produzida por Nayara e Thatyane.
A estampa na barra da camisa e na gola representam a rica flora local.

Abaixo, a Ministra da Igreja de Nosso Senhor da Boa Vida com o look criado pela alunas bolsista do projeto, Thatyane Mary.
Compõem o look,uma camiseta com a marca do corla de Capivari.
Este é o cartaz de divulgação da Festa de Coroação de Nossa Senhora Aparecida elaborado pela comunidade divulgando a programação para os dois dias, 11 e 12 de outubro na região de entôrno.
As crianças, os pescadores, os apresentadores, o coral e a ministra estarão vestindo roupa nova, criada pelo projeto de extensão da Universidade FUMEC, Faltam --o-- dias para o amanhã, do qualtive a honra de ser o coordenador.







segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Capivari/MG - Coral crianças da festa de coroação

Neste vídeo, um grupo de crianças vestidas com o figurino criado pelo projeto de extensão da Universidade FUMEC, Faltam --0-- dias para o amanhã, canta uma das músicas da festa de coroação de Nossa Senhora Aparecida.

Capivari-MG Agradecimentos

Depois de experimentarem suas roupas de anjos, confeccionadas pela equipe do Faltam --0-- dias para o amanhã, as crianças de Capivari agradecem pelo presente que receberam. Os agradecimentos são extensivos à toda a equipe, que não pôde estar presente na entrega do produto final de nosso projeto, à FUMEC e aos nossos apoiadores.

sábado, 5 de setembro de 2009

SALVE CAPIVARI! A Exposição


Estas são as primeiras imagens divulgadas do figurino da festa de coroação de Capívari, que no total é composto por mais de 40 peças, incluindo as roupas dos apresentadores, dos músicos e das ministras da Igreja de Nosso Senhor da Boa Vida.


As do figurino do teatro, também composto por mais de 40 peças e que está exposto no Ponteio, na Entrada Principal, serão publicadas oportunamente.


Visitem a exposição e conheçam a nossa interpretação de Capivari.


A exposição estará no Mall da Academia do Ponteio Lar Shopping até o dia 18 de setembro de 2009.
O belo conjunto composto por doze anjos, vestidos de branco e azul, asas de filó com gotas, flores de filó e de Sempre-Vivas nas cabeças.

A Negra tem a honra de coroar a Santa. Ela está simbolizada na exposição por esta representação. Seu figurino é uma surprêsa que só será revelada no dia da festa.

O Índio que acompanha a Negra ao altar, onde coroam a Santa.
Em Capivari quem representa o Índio é o Nathan, aquele que canta que é um barato.

Um dos pescadores trajando a roupa criada especialmente para a festa de Capivari.
No barrado, um dos ícones locais representa as flores da família das Sempre-Vivas.

Eu e minha obra, da qual me orgulho. Abaixo, o momento da assinatura.
Nossa Senhora Aparecida, finalizada, é coroada pelo conjunto de anjos, pelo índio e a Negra, que lhe oferece flores, um buquê de Sempre-Vivas.
Assistindo tudo na exposição, dois dos pescadores que encontraram a imagem no rio.









sexta-feira, 31 de julho de 2009

Tempo ruim, caminho bonito...

O tempo pode até estar ruim, mas o caminho é maravilhoso!




Achei esta foto a cara de Capivari! Calma! Não se espantem! Eu explico...

Tirei esta foto no retorno de Capivari a Belo Horizonte. Uma jornada digna dos mais aventureiros, vide a massa cinza que ameaçava engolir nosso pequeno ônibus sem o menor esforço.

Virgílio, Morgana, Jefferson e Letícia estavam passando mal, para começo de conversa. O restante de nós estava no mínimo cansado, depois da maratona que foi a nossa visita à Capivari. A estrada de terra, bastante acidentada, não estava sendo muito generosa na contenção de solavancos e unida a essa humilde chuva que nos pegou no caminho, bem, vocês já devem estar sentindo o drama.

Como se isso não bastasse, alguns minutos depois de termos deixado a cidade, nos deparamos com um carro parado literalmente no meio da estrada, a qual não comporta dois veículos em paralelo. Não havia nem sinal de pessoa nos arredores e as hipóteses começaram a surgir: “Vamos ter que quebrar um dos vidros para soltarmos o freio de mão e tirar esse carro daqui!”, “Será que dá pra passar pelo mato ou tem uma vala aí?” ou até “Cuidado! Pode ser um assalto!”, essa última seguida de movimentações nervosas de todos tentando esconder seus bem mais valiosos na meia, no sutiã, ou aonde mais coubesse. A segunda opção nos pareceu a mais sensata e, graças ao bom Deus, foi bastante eficiente.

Alguns quilômetros a frente, já no asfalto e recuperados dos sustos e indisposições, todos já haviam relaxado e dormiam, incluam aqui o motorista que só percebeu que havia virado para o lado errado quando já estávamos nos arredores de Três Marias!!! E não, naquela altura ninguém estava querendo um passeio a Três Marias de brinde. Resultado: o horário previsto para chegar em Belo Horizonte era as 21hs, chegamos as 2h da manhã!

Acho que um palavrão expressaria muito bem o que a equipe estava sentindo ao desembarcar na porta do Atelier da FUMEC mas, mamãe e papai me ensinaram que palavrão é feio, então vocês sintam-se a vontade para preencher os asteriscos que se seguem com a palavra que lhes for mais conveniente: **************!!

Esta volta foi tão intensa, que mal tivemos tempo ou paciência para apreciar a vista com a qual aquela bendita estrada de terra, onde o drama começou, nos presenteava a cada centímetro. Do pouco que vi, não consigo nem descrever. Foi algo que eu nunca havia presenciado como paredões e mais paredões de pedras com dezenas de quedas d’água fininhas, quase um vapor, riachos e mais riachos e sem falar na “paisagem lunar”, típica do cerrado mineiro, com todas aquelas pedras e plantas esquisitonas.

Mas o que tem Capivari a ver com isso tudo mesmo? A relação é bem mais simples do que vocês podem imaginar.

Chegamos em Capivari a noite, como eu disse em meu último post, e por este motivo não deu para conhecer muito bem o que havia por ali. No outro dia bem cedo, nem passeamos pela cidade e já fomos fazer uma trilha para conhecer a Cachoeira do Tempo Perdido e a matéria-prima do artesanato local, as sempre-vivas. Na olhada rápida que dei antes de pegar a estrada até a trilha, achei Capivari bonita e simples, uma calmaria só mas, eu ainda não tinha tido contato com a essência de Capivari, as pessoas. Isso só foi acontecer mais tarde, na reunião que tivemos com os adultos no que virá a ser o Grupo Escolar.

Durante aqueles momentos de discussão varreram-se da minha cabeça todas as imagens das belezas naturais da região. A cidade está presa em conflitos de interesse e as brigas de ego fazem qualquer estrada esburacada parecer suave. Se alguém tem algum conhecimento, não partilha com os outros e se aparece uma oportunidade para um pequeno grupo o restante não move um dedo para ajudar que isso se concretize. E há ainda o fato de que os Capivarenses esperam que a ajuda caia no colo deles e querem conquistar tudo sem fazer esforço. Lá é cada um por si e o Nosso Senhor da Boa Vida por todos.

Todos saíram muito desanimados dessa reunião, pensando se realmente seria possível implantar um projeto da natureza do que estamos desenvolvendo no local. Mas é aquela estória, um lugar como Capivari, minúsculo e parado no tempo, algo tão diferente para nós, sempre reserva uma surpresa.

E foi quando Capivari nos deu um tapa na cara e mostrou o caminho lindo que poderíamos ter pela frente. A peça de teatro do grupo “Quatro Gerações” nos divertiu e surpreendeu. Com certeza todos nós fomos dormir com imagens conflitantes na nossa cabeça. Mas foi de manhã, quando fomos tirar medida dos participantes do teatro e da Coroação de Nossa Senhora Aparecida que, eu pelo menos, tive certeza de que aquele lugarzinho merecia todo o trabalho que estamos tendo hoje. E isso ocorreu depois de ver uma imagem como essa:


Essas crianças, nossos anjinhos, são como as quedas d’água no paredão de pedra, bem fininhas, quase um vapor, mas não há massa cinza engolidora de ônibus que consiga enfeiar essa paisagem. E este foi o caminho esburacado que decidimos seguir.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

De volta para o futuro

Este era eu de então...

Zé, quer dizer Zé mesmo, mas Zé! em chinês quer dizer estar presente,



aqui e agora.
Custei a gostar de meu nome.
Quando criança era o mais comum.
Quando cresci, já nem tanto.
Foi quando comecei a gostar de José,
melhor ainda, de José Octavio.

Lembro-me de como eu era contemplativo, passava horas olhando para o horizonte como olha o cachorro acima, imóvel. Eu olhava para as bolinhas de sabão e seus reflexos, para os papagaios que eu empinava sem cerol e era feliz.

Nunca quis trazer para mim o papagaio de ninguém, os que eu mesmo fazia me bastavam.

Quando criança, eu confiava e esperava. Foi assim quando minha família me esqueceu na varanda de um hotel em uma estação de águas no Sul de Minas. Eu sentei em uma cadeira confortável, de reguinhas abauladas de madeira e esperei balançando os pés que não alcançavam o chão.

Eu tinha certeza de que meu pai voltaria para me buscar.

E voltou mesmo.


Lembro-me de como eu sonhava acordado e confiava no futuro enquanto minha mãe recitava orgulhosa, toda cheia de si e de seus Brasís idealizados: "Criança, ama com fé e orgulho a terra em que nasceste. Olha que céu, que mar, que rios e que floresta, a natureza aqui perpetuamente em festa..."


Bem mandado, eu amava.

Inocentemente.

Capivari, em Abril de 2009

Re-encontrei aquele meu olhar em Capivari no olhar deste menino dependurado na janela de sua casa. Olho para ele, me vejo e me sinto criança de novo, mas o olhar hoje desconfia. Desconfia do futuro e do Brasil.

O menino não olha para mim, olha cabisbaixo para o chão do alto do seu cavalete, cavalo, bicicleta, moto, avião, ... no seu mundão, fechado em si mesmo, no mundão que é Capivari.



Capivari é aqui!


Voltei prá casa guardando em mim aquele olhar e que só me abandonou quando re-encontrei a minha rotina.

Domingo passado, dia 4 de julho, resolvi conhecer o novo e segui em direção à Cidade Administrativa que o governo constrói às pressas para marcar presença na história, repetindo JK, usando o mesmo arquiteto para avalizar o seu poder ... credencial para chegar até Brasília.

Eu buscava conhecer os contrastes e por isto fui para o bairro localizado na outra margem da Via Verde que nos leva ao Confins. Será o Benedito? Sim, era o bairro São Benedito de Santa Luzia, cidade limitrofe.

Munido de papel, lápis e de um desejo de fazer correr o risco, como de costume procurei a melhor vista. Desta vez não foi dificil encontrá-la.

Fiquei impressionado. Por mais que eu tenha escutado falar, lido e visto a respeito, a obra me pegou de surpresa. O lugar é belo, amplo e o projeto competente, como sempre. Com relação ao resto, difícil dizer, mas é fácil de imaginar que a pressa, inimiga da perfeição, seguramente deixará marcas negativas no uso e ocupação do complexo.

Eu avisei: sou macaco véio e não é de hoje que desconfio. Meu olhar já não é isento há anos luz.

Em pé abri meu bloco A3 e freneticamente rabisquei e rabisquei. De repente um menino apareceu e perguntou: quer uma cadeira? Estranhei tamanha gentileza. Isto não é normal, não acontece quase nunca em nenhum lugar por onde ando e desenho.

Aceitei e puxei conversa: Gosta de desenhar, perguntei? Gosto - Matheus respondeu - mas não este tipo de desenho. Gosto de desenhar personagens... Perguntei: Quer desenhar? Eu tenho mais papel e lápis, completei. Não, agora não, tenho que ajudar minha mãe. Insisti: Você tem algum desenho prá eu ver? Tenho - ele respondeu e foi "lá dentro" buscar o que tinha feito da obra em frente. É só um detalhe, adiantou. Posso fotografar? Perguntei. Pode. Respondeu.


Desenho do Matheus com o prédio do novo Palácio de Governo na base da folha de seu caderno.

O maior vão livre do mundo, dizem.
Ele voltou para sua casa e seus irmãos começaram a aparecer. Eram quatro homens no total. Imediatamente voltei à minha infância ao ver o seu irmão mais novo, Ruan? Era eu de novo com a melhor cara do mundo, a cara de quem confia e é feliz.

Os outros três, Matheus, João Vitor e Luiz Felipe, eram como se fossem meus irmãos mais velhos, Francisco, Roberto e Antonio, em ordem decrescente.

Quando eu tinha a idade do Ruan, minha única irmã Maria ainda não havia nascido... A filha tão esperada - parece que minha mãe ficou grávida dela desde o dia em que conheceu meu pai - chegou quando eu tinha três anos e carregou para si toda atenção além de laços enormes na cabeça.

Com o trono ameaçado, enfiei o pé na bacia com água fervente - naquele tempo eu tomava banho numa bacia de alumínio ENORME - e consegui chamar a atenção que queria. Doeu muito, fui parar no hospital e guardei a cicatriz sob a meia por muito tempo. Melhor mudar de estratégia. Pensei.


Meu reino, ruiu. Passei a ter pena de mim.

Como eu sempre fui um menino bonzinho e sonhador não foi difícil fingir calma e construir outro, paralelo, só meu. Bonzinho sempre não é bem o caso, passei a usar máscara de menino bom que por pouco não ficou impregnada para sempre em minha persona.

No meu mundo novo me refugiei e do alto de minha significância comecei a olhar desconfiado e dissimulado, comecei a prestar atenção nos outros, a fazer comparações e elucubrações. O confronto dos dois mundos foi , foi quando passei a sentir na pele os pecados da carne e do espírito.

O primeiro deles e talvez por isto o maior e mais traumático, foi o de ter que ir para a escola dia após dia, pela vida toda = o infinito. Depois outros vieram desde então em ritmo cada vez mais frenético, por todos os meios, com fins lucrativos, obscuros, diversos e, por vezes, divertidos.

Os mais recentes chegam do Senado, das Câmaras federais e municipais, das Assembléias dos deuses e dos homens...



Matheus e Ruan, na porta de sua casa.
PerceOlhem bem a limpeza do quintal, as paredes pintadas... coisa, digo, casa rara hoje em dia.
Um verdadeiro lar, doce lar.

Penso, logo existo e, enquanto penso desenho!

E continuei a desenhar o futuro que estava diante de meus olhos emendando folhas e a fotografar aqueles meninos sem tirar o olho do que ficou em Capivari. Enquanto o de lá mira o vazio, os daqui miram a obra faraônica que brota na frente de sua casa, que irá expulsá-los de seu mundo composto pelo lar muito bem arrumado, quintal com uma mangueira frondosa e um clima de harmonia e de felicidade percebidos a olho nu. Um mundo que lembra os quintais da antiga Belo Horizonte onde, crianças, vivíamos soltos, sem medo.

Quer café? Matheus perguntou.

Quero. Respondi e tomei um café com muito açúcar e muito afeto.



Esta é a montagem do desenho da nova Cidade Administrativa que fiz a olho nu futuro.

Para se ter uma idéia da dimensão da obra e da distância de tudo, a pequena mancha que se vê à esquerda é o centro de Belo Horizonte, uma massa edificada muito densa.

Mais ao fundo, a Serra do Curral, seu símbolo maior e natural.


Esta é a massa edificada do centro de BH, a da esquerda.
A resolução dos desenhos não é boa de propósito. É uma proteção contra um pecado capital do mundo digital: a pirataria.



Este é o Ruan de hoje.
O desenho foi feito tendo sua foto como referência.
O menino de Capivari e os daqui me levaram para o passado e me trouxeram a esperança de poder resgatar o olhar puro e a felicidade que perdi na trajetória de minha vida.

Eles me trouxeram de volta para o futuro.


É como se eu tivesse subido até o topo do Pico do Itambé carregando muito peso, dando voltas em torno de mim mesmo e começasse agora a descer, mais leve, consciente do caminho que devo tomar, sob este céu azul, este clima perfeito e o sol preguiçoso deste mês de férias. Tempo de empinar papagaio, de fazer bolinhas de sabão e de ser feliz.

Desta vez para sempre.




Peço a sua benção, Ruan!
Que Nosso Senhor da Vida Boa lhe proteja.

Dia agnóstico... ou, flores para o povo

Capivari é aqui e agora, de novo.
OLHAI AS SEMPRE VIVAS NO CAMPO
Flor de um bouquê


Dia 6 de julho foi a data inicial dos trabalhos em ateliê das equipes de Capivari, a deste “Faltam - -0- - dias para o amanhã” e a do grupo do teatro "Quatro Gerações". Antes disto muito já havia sido feito: reuniões preliminares, viagens à Capivari, relatórios, reuniões rotineiras, diagnósticos, pesquisas, estudos, croquis, discriminação e orçamento de materiais... agora aguardamos a compra e doação. Enquanto os tecidos não vem, modelamos.


No caso deste - -0- -, Thatyane e Nayara participaram no mês de maio de oficina de confecção de coroa de flores para anjos na Cidade Ouro Preto onde foi desenvolvida um diadema com aplicação de flores de tecido compostas com sutileza e delicadeza com flores naturais, as Sempre Vivas, naturais de Capivari e da região de Diamantina, conhecida internacionalmente . Talvez por isto, ameaçada de extinção. É o maior ícone da região.

De lá prá cá, iniciou-se uma produção de flores comandada por Thatyane sem precedentes na história da humanidade. O objetivo é criar os adornos para os diademas e as asas dos 12 anjos que protagonizam a festa de Coroação de Nossa senhora Aparecida, em Capivari. Para alcançarmos este objetivo, Nayara e alunos voluntários MMMM – Mariana/Marcela/Maria Rita/Manoel - se juntaram ao mutirão e puseram mãos à obra.

Primeiros resultados: Seis diademas, os outros seis também já estão prontos

Diademas em linha e o sol de inverno no ateliê

A proposta original do projeto previa a imersão na e a participação da comunidade neste estágio, no entanto muitas foram as dificuldades para acomodação e alimentação de nosso grupo no distrito já que a informalidade não nos possibilita comprovar despesas tal como exigido em projetos patrocinados com recursos de terceiros, no caso, da Universidade. Este fator é extremamente limitador, deve ser analisado com carinho pela associação de moradores do distrito e para ele buscar uma solução.

Manoel, Mariana, Thatyane e Nayara circundam Éder que vai nos ajudar na estamparia dos tecidos. A pose é espontânea... NAs mãos de Thatyane, os primeiros ensaios para construção das asas.

A dificuldade de comunicação com Capivari é enorme. Lá não existe telefonia fixa, o celular funciona quando quer a não ser que se suba no alto do Pico Itambé - veja na 1ª foto... - não existe Internet e o correio demora mais do que o usual para chegar ao(s) destinatários porque as cartas são entregues ou postadas em Milho Verde ou São Gonçalo do Rio das Pedras. Tudo isto nos inviabiliza programar idas e vindas.

Manoel incorporando um anjo? As asas ainda não estão prontas.

A Associação de Mulheres "Sempre Vivas Sempre", de Capivari, além do belo nome não tem espaço suficiente para atuar porque cedeu suas instalações para o grupo escolar até que sua obra seja finalizada e entregue à comunidade, ou seja, não existe espaço adequado para trabalhar e armazenar trabalhos e tecidos finos, delicados.

A mão de obra local ainda é precária e este projeto não tem como patrocinar a ida de um grupo, como o “Mulheres de Fibra”, de Ouro Preto que já se dispôs a ir até Capivari para ensinar a população local a trabalhar artesanato com produtos de sua região. Não temos como bancar os custos de transporte, acomodação e alimentação correspondentes o que só seria viável se projetos maiores fossem desenvolvidos e aprovados pelo “Universidade Solidária”, do Banco Real – Capivari está fora do raio de 150 km de atuação da FUMEC – pela Caixa Cultural ou Lei de Incentivo Estadual/Federal. Seria necessário que a comunidade estivesse muito mais organizada em todos os sentidos para atuar como promotora e, inclusive, ter condições mais adequadas de comunicação.

Bonita a flor, pensava eu.

Voltando ao Flores para o Povo...

Ela vai de vento em pôpa como pode ser constatado pelas fotos.


O gesto e o trabalho dos alunos são simbólicos, delicados, amorosos e a garra profissional. O objetivo maior é procurar fazer com que Capivari valorize suas tradições e seus potenciais e que desenvolva cada vez mais a consciência de que podem e devem explorá-los adequadamente, criando uma identidade e um diferencial que eleve a sua auto-estima e crie condições de se autosustentar.

O primeiro passo, na nossa opinião, é procurar desenvolver a consciência de que não se deve mais esperar acomodado pelas coisas que chegam prontas e bem acabadas, por isto "Faltam --0-- dias para o amanhã"; desenvolver a consciência de que se deve receber os visitantes e tratá-los de maneira que faça com que eles levem consigo na bagagem o desejo de voltar; a consciência de que é preciso querer aprender a fazer e correr atrás, querer conquistar e não mais se fazer de vítima; a consciência de que é possível começar copiando sim, cuidando no entanto para que a produção de seus produtos tenham a cara de Capivari.

É preciso ter a consciência, por exemplo, de que uma “Bola Ecológica” revestida com flores da região, não pode ter o seu miolo de isopor... Simples assim.

Mariana que, além de trabalhar já doou isto e aquilo para o projeto.

A maior preocupação deste - -o- - após a entrega de toda esta produção, assim como a do grupo de teatro, é a necessidade de conscientizar os protagonistas dos dois projetos de que é necessário cuidar bem do presente, inclusive destes que receberão; que é necessário acomodá-los e guardá-los bem para os próximos anos e próximas gerações com o mesmo carinho com que ambos estão sendo produzidos; é fundamental que reconheçam que as peças dos figurinos não pertencerão aos protagonistas da festa e do teatro, mas que serão patrimônios materiais da comunidade que, aliados aos imateriais, criará o diferencial necessário para atrair a todos nós e o verdadeiro progresso, ambos necessários para se construir o presente e o futuro de Capivari e o de seu povo.

Esperamos que, depois dos apoios importantes que a comunidade já recebeu e de tanta participação em cursos e tantos diplomas - dependurados com orgulho nas paredes das casas - os líderes de Capivari se organizem para conquistar cada vez mais a condição de autosustentabilidade que tanto almejam, com muito mais apoio, mas por seus próprios méritos.

As bolsas disto e daquilo outro distribuídas a rôdo por este país afora, criou uma cultura do esperar sentado e reclamar.
Esperamos que isto não aconteça em Capivari.
Diplomas dependurados não bastam. São estes e outros os tantos mandamentos para que a Recherche du temps perdu possa efetivamente trazer resultados positivos para Capivari.

Que seu padroeiro, Bom Jesus da Boa Vida, faça com que seu povo compreenda que "boa vida" não quer dizer que se deve esperar sentado e ganhar tudo de mão beijada.
A mão, digo, amém!






quarta-feira, 8 de julho de 2009

La recherche du temps perdu

Capivari está ilhada no mundo, físico e digital. Esta é a sua salvação e o seu calvário. O distrito do município do Serro está no caminho Real, mas fora do seu eixo, à margem da estrada Diamantina/Serro/Conceição do Mato Dentro/BH.


Poucas pessoas chegam até lá, algumas vindas pelo turismo solitário, de passagem, outras solidárias, com vontade de ficar e ajudar. A estrutura é ainda muito pobre e precária, portanto há de se ter paciência porque, por maior que seja a vontade do povo e o número de cursos, palestras e o que mais for que já lhe tenha sido oferecido para dinamizar o aprendizado de receber bem e com qualidade os visitantes, na prática pouco foi incorporado e alguns problemas podem comprometer o sonho de se viver do turismo com dignidade.

Com certeza, o potencial é imenso e a alternativa muito válida e viável, mas a disponibilidade de dinheiro, muito pouca. Não existe milagre que, da noite para o dia, transforme positivamente o cotidiano daquelas pessoas que perderam o seu referencial e o principal ganha pão com a proibição da extração de diamantes, mesmo que reconheçam que seus veios já estivessem praticamente esgotados.

A natureza é sublime e a arquitetura simples do local ainda não compromete o casario do vilarejo, mas o risco é eminente. Na expectativa de receber gente de fora, os tradicionais puxados mineiros, que pasteurizam as cidades do estado, ameaçam despontar. As esperas de ferro apontam para um futuro próximo...

A proposta deste "Faltam --0-- dias para o amanhã", ou simplesmente --0--, é sutil, tranqüila. É uma maneira de chegarmos até a comunidade sem criar grandes expectativas, mas certamente é muito positiva porque permitirá através da moda, como se verá nas publicações anteriores, a elevação da auto-estima de sua população com a valorização de uma de suas manifestações mais tradicionais, a festa de Coroação de Nossa Senhora Aparecida.

Valorizando a festa e seus protagonistas, certamente um e outro atrairão o aguardado público que terá muito o que explorar na região. O clima será favorável e acolhedor.

Do pouco que já tive o privilégio de conhecer, destaco e indico um passeio na Cachoeira do Tempo Perdido, cravada no meio do nada, mas já ameaçada pela perspectiva de construção imediata e improvisada de um receptivo para turistas logo à montante e, um pouco mais acima, de um conjunto de casas de campo nas proximidades para gente que vem de fora, com dinheiro.

A cachoeira é linda, especial, acolhedora, com praias de areia fina e branca antes e depois da queda, um espelho d´água, um poço aqui e outro ali, uma ducha revigorante de água pesada pela queda, não tão gelada como se poderia esperar encontrar no meio do mato. Um lugar sagrado.

Espero que o resgate de um tempo considerado perdido pelos habitantes de Capivari permita a conquista dos meios de sobrevivência e sustentabilidade aguardados com expectativa, mas que esses sejam conscientes, ecológicos, respeitosos, lembrando que de Proust e de louco, cada um tem um pouco.

Que Bom Jesus da Boa Vida proteja Capivari e seu povo.

Amém!